Esqueci de te esquecer

 

O transtorno de défcit de atenção atinge entre 3% e 7% da população mundial e é um dos distúrbios mais estudados atualmente. Seus sintomas caracterizam-se por dificuldade em sustentar a atenção, inibir pensamentos de distração comportamentos e agitação motora.

 

Se sempre dizem que você tem que prestar mais atenção, que você é muito desligado, desorganizado, que começa tudo e não termina nada, que quer tudo e não faz nada, que tem que decidir o que quer fazer da sua vida. Fique atento, você pode ter TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria, o transtorno é considerado um dos distúrbios comportamentais mais freqüentes na infância, entre 3% e 7% em crianças em idade escolar no mundo inteiro.

 

De acordo com o psiquiatra Manoel Dias Reis, que faz parte do grupo brasileiro de especialistas em TDAH o transtorno não é recente. A primeira descrição de crianças com sintomas de desatenção e de hiperatividade é de 1864 e o primeiro trabalho científico foi realizado em 1902. Passou a ser conhecido domo transtorno mental na década de 80 com o surgimento da fluoxetina (inibidor da captação de serotonina no nível do córtex cerebral, neurônios serotoninérgicos e das plaquetas). Atualmente o TDAH é reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

 

Mariana Silva Lima, 27, Psicóloga, possui TDAH e conta que as pessoas não entendiam sua dificuldade de manter o foco na escola. Sofria por muitas vezes seus pais a compararem com a irmã que não possui problema de concentração. Sendo assim, seus pais a consideravam preguiçosa. Segundo Mariana era taxada “como quem deixava as coisas para lá”. Diziam: “ela não tem jeito”. A psicóloga relata que queria muito dar conta de ser como a irmã, de se concentrar, de fazer o dever de casa. “Toda tarde minha mãe chegava em casa e o dever de casa da minha Irma estava feito e o meu só tinha a metade das questões feitas, o que irritava meus pais e fazia com que eles brigassem comigo” acrescenta Marina.

 

Porém, segundo o neuropediatra e coordenador do ambulatório de TDAH do Instituto da criança Erasmo Cella, o distúrbio de aprendizagem afeta de 15% a 40% das pessoas que possuem o transtorno, o que mostra que a dificuldade de aprendizagem escolar é somente mais um sintoma e que quem tem TDAH. Cella ressalta que é necessário saber que existe défict de atenção sem hiperatividade. E defende que o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade seja identificado o mais cedo possível, para começar o tratamento, pois a plasticidade cerebral, assim como o metabolismo diminui por volta dos 24 anos, ficando mais difícil para o cérebro se flexibilizar depois desta idade tornando o tratamento mais lento e mais complicado.

 

“Eu sempre desconfiei que existisse algo que não facilitava a minha vida, afinal por que minha irmã conseguia fazer um para-casa inteiro e eu não conseguia? Eu queria conseguir. Terminar as coisas não é meu natural, eu me esforço muito, eu me obrigo”, relata a psicóloga.

 

Mariana ainda acrescenta: “Ninguém nunca virou para mim ou para minha mãe e disse: a mariana tem déficit de atenção. Só percebiam os meus comportamentos inadequados. Tomei bomba na 4ª série, e nem sei direito por quê. Tomei bomba e nem tinha percebido que estava tão mal assim”. Mas com o passar do tempo, Mariana fala que sua vontade de dar certo, de conseguir entrar na normalidade e responder ao que seus pais desejavam era tão grande que, segundo ela, começou a criar outra patologia para concertar o desconcerto. Tentando manter as coisas organizadas, chegar no horário, dar linearidade ao dia-a-dia. A psicóloga faz terapia há 7 anos, o que a ajuda a treinar e dar continuidade a tudo isso.

 

A neuropediatra Valéria Modesto critica a falta de marcadores neurológicos que aumentem a qualidade do diagnóstico do transtorno, afirmando que o público ainda tem dificuldade em aceitá-lo porque não há sinais físicos nem exames que o comprovem. Para ela é necessário esforços em busca de evidências neurológicas, cognitivas ou genéticas do TDAH.

 

Quanto ao tratamento, Marra acredita ser baseado no tripé da educação, psicoterapia e medicação. A Dra. orienta que a medicação é necessária e que não há dúvida sobre sua eficácia. Afirma não causar tolerância nem dependência ao usuário. Segunda ela, os efeitos colaterais mais comuns são perda de apetite, cefaleia, irritabilidade, taquicardia e ansiedade.
Para Marra, o preconceito contra as medicações atrapalha na aceitação ao tratamento contra o TDAH.

 

Diferença entre TDAH e outros transtornos

A neuropediatra Marli Marra chamou a atenção para a diferença de conduta entre uma pessoa com TDAH e alguém com dificuldade de aprendizagem. Ela explica que o paciente com TDAH tem dificuldade em perceber o estímulo, focar e manter o foco. Ele não inibe a primeira resposta, planeja mal a distribuição do tempo, não lê ou ouve toda a instrução, não considera outras respostas e não pede ajuda. A crianças com dificuldade de aprendizagem podem sofrer de ansiedade, depressão, baixa visão, anemia ou podem simplesmente não se adaptar à técnica de ensino utilizada pela escola.

 

Ainda diferenciando as patologias, Marra distingue também a dislexia, que envolve uma dificuldade de decodificação, da dificuldade de leitura associada ao TDAH. A Dra. acrescenta que mesmo sem dislexia, a pessoa com TDAH lê mais devagar, e por isso tem direito a um tempo de prova maior no vestibular.

 

Grupo de Ajuda DDABH

Para saber mais sobre a TDAH em BH, existe um grupo de ajuda anônimo chamado DDABH (www.ddabh.org). As reuniões acontecem toda segunda-feira das 19h00 às 21h00, normalmente em um espaço cedido dentro Colégio Santo Agostinho (Av. Amazonas, 1803 – Santo Agostinho – Belo Horizonte/MG).

 

Segundo o coordenador do grupo, que prefere não ser identificado, o DDABH existe a aproximadamente 5 anos. Suas reuniões têm como objetivo a troca de experiências, sem cunho terapêutico e sem vínculo com instituições ou profissionais de saúde, embora muitos deles possam, eventualmente, dar o seu apoio com palestras, recomendações e leituras.

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